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Mostrando postagens de janeiro, 2020

Alma moribunda: parte II

O rapazola adiante, vendo que as anciãs tornavam ao templo e ciente da causa que as obrigava a tal, figura-se indiferente a tudo que sucede até o momento presente. Vira os quatro moribundos erguerem-se dos seus respectivos esquifes e tomarem rumos diferentes; ambos os defuntos - a exceção do garotinho que era inocente como o é um anjo - possuíam uma semelhança: a dor de serem traídos por seus semelhantes. Tal indiferença era única - e exclusivamente - porque conhecera o drama de cada um desses seres pútridos; sobretudo a do pequenino - cujo nome, de acordo com o rapazola, é João... Joãozinho como era chamado mais comumente. E a da moça cujo filho fora assassinado brutalmente. "A moça, aquela que fora abandonada pelo noivo..." conta ele. "Na antevéspera a seu casamento recebeu - do seu adorado (cujo nome dir-se-a: Narcíso) - um ramalhete de flores contendo o magnífico dente-de-leão e rosas amarelas lindíssimas; uma das velhas ali presente comenta que não é um bom p...

Alma moribunda: parte I

Erguem-se dos leitos quatro moribundos; caminham ambos em direções opostas - onde vão? Não sei. As velhas alcoviteiras, residentes junto a antiga catedral, espantam-se; tamanho horror as consome: tentam correr na direção da igreja para rezarem pedindo pela remissão de todas as vezes nas quais falavam dos transeuntes nos arredores da cidade. Pobres anciãs... Não veem que já é tarde pra isso! Não, minto; sempre há tempo pra tal. Mas por que deixar somente pra quando algum ser ergue-se do seu esquife?! O primeiro pútrido ser - uma moça jovem, altiva; dum vigor que se faz notório mesmo após sua extinção - caminha rumo ao norte. Por que norte?! Ora! pois! porque é aí que reside seu noivo, digo, ex-noivo... "Ela fora noiva?!" dirás com espanto. Sim, fora. Mas essa foi sua desgraça (digo desgraça não pelo fato de casar-se) pois o moço, com o qual iria unir-se , abandonou-a ao pé do altar. "Mas que crápula!", dizes tu. Sim, foras deveras; a donzela não suportara taman...

Ùltimo Pranto

Inda ontem recordei da tua outrora existência e... sinto muito. Fracassei! Cada novo dia é um tormento angustiante. Não sei o que aqui se passa. Me fazes muito falta. Eu sei: Já passara-se um longo período desde a tua partida, mas ainda me doí a alma. Falhei em outrora e agora falho novamente.  Pressinto que em breve nos encontraremos: Você está pronta? porque eu estou. Ninguém será avisado, não quero que interfiram. Eles não me entendem, não sabem a dor que me assola; era para ter sido a mim a quem o fim levaria e não a ti. Está sendo difícil suportar essa dor... Todos ao redor me dizem o óbvio: " Você tem que superar. " Falam como se fosse fácil. Se passassem pelo o que passo, não diriam uma estupidez tão grande!  Escrevo, mas sei que tu não lerás mais nada. Nenhum escrito provindo de um desgraçado, lhe trará algum proveito. Até mesmo a caneta me trai, falha tal como seu dono. Insiste em não gravar no papel palavras que ora escrevo. Compreendo-a muito bem. No...