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Alma moribunda: parte I


Erguem-se dos leitos quatro moribundos; caminham ambos em direções opostas - onde vão? Não sei. As velhas alcoviteiras, residentes junto a antiga catedral, espantam-se; tamanho horror as consome: tentam correr na direção da igreja para rezarem pedindo pela remissão de todas as vezes nas quais falavam dos transeuntes nos arredores da cidade. Pobres anciãs... Não veem que já é tarde pra isso! Não, minto; sempre há tempo pra tal. Mas por que deixar somente pra quando algum ser ergue-se do seu esquife?!

O primeiro pútrido ser - uma moça jovem, altiva; dum vigor que se faz notório mesmo após sua extinção - caminha rumo ao norte. Por que norte?! Ora! pois! porque é aí que reside seu noivo, digo, ex-noivo... "Ela fora noiva?!" dirás com espanto. Sim, fora. Mas essa foi sua desgraça (digo desgraça não pelo fato de casar-se) pois o moço, com o qual iria unir-se , abandonou-a ao pé do altar. "Mas que crápula!", dizes tu. Sim, foras deveras; a donzela não suportara tamanha desfeita e saiu em disparada pelo átrio da igreja - esta mesma na qual as anciãs entraram a pouco. Correra até a ponte e pulara. Morrera de desgosto. Agora vai ao seu encontro mostrar que achara alguém que de fato lhe amara e que não lhe abandonaria: a morte.

O segundo - um velho viúvo que devotou sua vida aos filhos (já agora crescidos) - prosseguiu na direção oposta a moça (agora, esposa da morte). Fora aí que viveu boa parte dos seus dias com esposa  - e sem - e filhos. Eles o abandonaram ao relento, jogado numa casa de repouso onde veio a padecer. Agora volta para mostrar-lhes que encontrou uma filha com a qual podia contar e, esta, não o decepcionaria.

O terceiro... Ah! este é um lindo garotinho com seus aproximados seis anos de idade. Olhos pequeninos (azuis), cabelo macio... um anjo; a mãe viera a espancá-lo repetidas vezes, e... Da última ele não sobreviveu. Sua mãe consumida pelo remorso cometeu o infortúnio dum suicídio (isso após entregar-se a vícios inúmeros). Ele veio procurá-la para matar a saudade que o consome, desejava vê-la - mas ao chegar encontrou apenas o cheiro do seu perfume costumeiro.

O quarto - uma mulher jovem que após a morte do único filho entregou-se a diversos vícios; por fim cometeu suicídio - ia em direção ao leste (oposta ao garotinho) no intuito de ver seu filho amado e suplicar-lhe o perdão. Chegou a um terreno inóspito onde fora deixado o corpinho do pobre menino, mas nada encontrou além da manta na qual estava envolto.


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Autoria: Alex da Silva Alves
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