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Alma moribunda: parte II

O rapazola adiante, vendo que as anciãs tornavam ao templo e ciente da causa que as obrigava a tal, figura-se indiferente a tudo que sucede até o momento presente. Vira os quatro moribundos erguerem-se dos seus respectivos esquifes e tomarem rumos diferentes; ambos os defuntos - a exceção do garotinho que era inocente como o é um anjo - possuíam uma semelhança: a dor de serem traídos por seus semelhantes.

Tal indiferença era única - e exclusivamente - porque conhecera o drama de cada um desses seres pútridos; sobretudo a do pequenino - cujo nome, de acordo com o rapazola, é João... Joãozinho como era chamado mais comumente. E a da moça cujo filho fora assassinado brutalmente.

"A moça, aquela que fora abandonada pelo noivo..." conta ele. "Na antevéspera a seu casamento recebeu - do seu adorado (cujo nome dir-se-a: Narcíso) - um ramalhete de flores contendo o magnífico dente-de-leão e rosas amarelas lindíssimas; uma das velhas ali presente comenta que não é um bom presságio receber tais flores. Alsina - a noiva - diz ser superstição líquida e por tal não consumar-se-a. A velha, ainda contrariada, calou-se pois sabe que é real e não apenas uma estória.

O rapazola faz uma pausa como que a lembrar - ou reviver - todos os detalhes do dia que se seguiu; sorve lentamente a água contida num copo ao seu lado e a saboreia como o faria se fosse um vinho antigo. Por fim, prossegue: " As horas que antecediam a cerimônia foram de total ansiedade e nervosismo; Alsina já refizera toda a maquiagem quatro vezes." Espanto-me e ele explica: " O dia da cerimônia amanheceu sem nenhuma nuvem ao céu, apenas o sol - que já ás sete horas da manhã estava no seu pico de calor. O suor corria-lhe pela fronte desmanchando, assim, todo o trabalho da sua dama de honra maquiadora. 

O sol 'inda agora faz-se causticante. "Chegada a hora da cerimônia, adentrou a igreja primeiro as damas de honra seguidas por Alsina; ao ir adentrando vagarosamente vislumbrou Narcíso. Não sei o porquê, mas contam que ela virou-se para seu velho e disse que ele (o noivo) estava semelhante a um copo de leite (bela flor por sinal!) com aquela vestimenta. Dado início a cerimônia, o noivo - impaciente - esperou que o clérigo chegasse no famoso momento 'Aceita Alsina como sua legítima esposa... Amá-la... Respeitá-la até que a morte os separe?!' para proferir-lhe um doloroso não. O que se deu depois creio que já sabeis; a rumores que ele vinha galanteando outra moça. Não sei se é verídico.

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Autoria: Alex da Silva Alves
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