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Mostrando postagens de 2019

Sublime toque

   Viajara milhas para, enfim, vê-la; imensa alegria lhe encheu o peito.  Pensou ser ego, mas não, não era nem podia ser.  Não ouso dizer que fora amor porque creio ser uma palavra muito forte e, por tal nível, não deve ser utilizada levianamente.    Gostara-a  ao primeiro olhar, ao primeiro beijo - singular! - saboroso; se lês isso que ora narro saberá de quem trata.  "Oi, gatinha dos olhos de mel" disse ele com leve riso de canto de lábios.  Amistoso.  Charmoso.    Recordo que em outra ocasião ela perguntou-lhe: "Usas maquiagem?" e, após, tocou-lhe as faces.  Toque caloroso, macio...  A priori ele não entendeu.  Eu, no entanto, desde o princípio soube do que se tratava; e aqui, como sei que lerás, digo: "Foste muito esperta.  Eu em seu lugar teria feito o mesmo; mesma abordagem." Proclamo tal em alta voz tendo um riso saliente fixo ao rosto.    "Bela Helena, tenho profundo receio de machuc...

Nau

   Noite quente, estupidamente quente; nem mesmo a brisa, que outrora  soprava sobre mim, foi capaz de aplacar esse exaspero calor. tão quente... tão frio.    Ao longe vê-se uma grande nau a zarpar; mas aonde irá ela? Seu destino é incerto, tendo como única certeza que o porto no qual ela irá atracar não será o teu. Pobre marinheiro, tua barcaça segue a nau mas, ela segue apenas o curso outrora já traçado; ouso dizer ser em vão todo esse teu trabalho de seguí-la.    Iça-se a vela do mastro principal e tu, oh marinheiro, vais ficando (a cada onda marítima que passa) mais distante da tua adorada nau; não te afliges, oh marujo, porque tu bem sabes que o cruzeiro não tem porto fixo (ao contrário da nau). Modela-te   num ancoradouro permanente, quanto a nau deixa que siga; não te fases bem essa perseguição infundada.    Nau e cruzeiro estão agora lado a lado, vem aproximando-se uma grande tempestade; nau e cruzeiro afastam-...

Cometa

   Oh, simplória estrela, vem ao meu encontro. Minhas noites sem ti não são mais as mesmas; sinto falta da tua saudosa, e explendorosa, cabeleira loira, do olhar que me lançavas em meio as noites escuras, do teu riso resplandecente que me guiava por entre esses caminhos turvos e tristes (tortuosos)... Ah, que saudade sinto se ti!    Entende-me a mim, estrela minha; sem o teu brilho vigoroso meus passos são inseguros e, como consequência, não posso seguir na incerteza. Pena tu ter-se extinguido, ou fora que abandonei a ti?! Não sei. Não há como saber agora que fostes.    Ainda ontem sonhei contigo: estavamos, ambos, a correr em um campo coberto por alecrim, cujo aroma pairava no ar. Paramos. Trocamos olhares como cúmplices de um crime perfeito; em meio a este não consegui conter-me e roubei-te um beijo... Ah, estrela, este sonho fora tão real que pude sentir a maciez dos teus lábios nos meus.    Perdoe a mim, estrela, por expor esse desejo que t...

Entrevista dos seres

- Formiguinha, que te vale este mundo (de)vasto? - De nada me soma; vivo, sobrevivo...  Existo apenas. - Cigarrinha amiga, que te vale o teu cantar? - Anima meus dias e noites de verão;  mas de nada me vale nos longos invernos (infernos) - Castor, nobre ser, que te vale esta tua represa? - Abrigo, proteção... Trabalho... Preguiça de o fazer. - Abelha, minha rainha, que te vale teu nécta e teu pólen? - O néctar me serve de alimento,  a mim e aos meus; o pólen, no entanto, ajuda no crescimento das minhas, nobres, amigas plantas. - Rosa, roseira, que te vale tuas pétalas e perfume? - Beleza... Elegância. - Senhor Grilo, que te vale teu cricrilar? - Cada qual possui seu modo de festejar; este é o meu, alegrar as madrugadas com o meu cantar. - Perguntaste-nos que nos valia o mundo, o cantar... Perguntamos também nós a tu: que te vale a saudade, o tempo e a escrita? (Todos em uníssono) - O tempo é um fétido, pestilento, insubordinado... Mísero ladrão. Furtou-me o ...

Última carta

  Caríssima, Não sei ao certo o que me levou a tomar tal decisão; o que aqui suponho é que fora algo necessário para o teu crescimento pessoal. Arrisco também o palpite de que não entenderás o que fui acometido a fazer.   A súplica que te rogo é que lembres de mim como eu fora em vida (contente); isso, por certo, vai ajudá-la a transcender a dor que hoje lhe causo. Peço-te que não chores, ao contrário, comemore pois acabo por libertar-me desta matéria que não me serve para nada.   O fato de não poder mover-me contribuiu para o que estou prestes a consumar; sinto em ter que deixar-te, mas já não suporto mais a arrogância, a prepotência e o egoísmo do qual este plano está repleto.   Penso eu,  que este ponto lhe será de fácil compreensão, tendo em vista o quanto sofrestes no decorrer da tua, pobre e miserável, vida. Saibas também que não tenho outra opção, apenas esta: me desfazer deste corpo de carne e voltar pro meu corpo astral.   Ademais, estas são a...

Reflexo

Nada mudou ou mudará; por mais que o tempo passe, não será possível... O passado não deveria doer tanto assim, visto que eu mal o vivi! Talvez seja por esse motivo tamanha dor, desalento...    Certo dia, isso lembro com clareza, estivera eu a beira de um lago pequeno, no entanto, bem profundo - pensava em atirar-me ao fundo; fiz menção em jogar-me,  mas um velho, que ali próximo morava, veio a meu encontro. Não me permitiu pular antes de ouvir o que tinha a dizer.    "Sabe criança..." começou ele, "quando tinha sua idade..." sua voz embargou, como que amargurado; nesse momento não pude conter as lágrimas, que a essa altura já me jorravam pela face. "Quando tinha sua idade também pensei a mesma coisa que agora lhe passa pela cabeça." continuou ele, ainda com a voz um tanto trémula,  "eu vivia todos os dias pensando naquela que haveria, um dia, de ser minha melhor amiga, amante, confidente amada... Vulgo esta, a morte."    Olhei-o com olhar inte...

Dependente

A luz que ilumina o dia é a mesma que outrora fez brilhar as maçãs da tua face; ah, que belas maçãs! De um vermelho tão intenso, e denso, que mais parecia ser negro. Uma tonalidade singular.    Tua imagem não me foge da mente, mesmo após todo esse tempo que se passou; ainda posso sentir o toque aveludado que possui tua pele... E tua boca?! Essa nem se fala, a mesma maciez que possui seu tecido exterior também o foi empregado no desenvolver dos teus lábios. Agora, me veio a mente aquele nosso beijo de séculos atrás - aproveito para perguntar-te: " Assim como as crianças, na escola, sempre que lhes permitem, repetem o lanche. Qual seria a probabilidade de eu repetir, mais uma vez, do teu beijo?"    "Por que tu fazes essa analogia entre o beijo que te deste e o lanche que um pequeno repete?" dirás. Em contrapartida te direi: "Ambos são tão saborosos... Sim, pois, caso o pequenino não o tivesse gostado não o teria pedido repetição; Assim, portanto, é o mesmo que ...

Medo

    Não consigo deixar o medo de lado! Meu mestre sempre dizia que "sem o medo não se pode ser corajoso!" ele costumava afirmar que eu seria capaz de tudo, entretanto, teria de enfrentar todas as situações difíceis, pelas quais eu passaria no decorrer da minha vida, de fronte. Ele nunca duvidou do meu potencial, no entanto, jamais acreditei que o possuía!     Com o passar dos anos pude ver o quão certo ele estava. Eu realmente tinha um grande potencial! Comecei a trabalhar em cima dele, contudo, a medida que o aprimorava sentia-me solitário neste vasto mundo; ele, o meu querido mestre, falava-me que " durante toda a vossa existência irás te sentires sozinho, todavia, não se engane porque outros estarão trilhando o mesmo caminho que você. E o mais importante,  nunca desista!     Essas palavras, as trago comigo até hoje... O tempo passou, mas elas permanecem bem vivas na minha memória. Desde esse dia saí a fim de percorrer meu próprio caminho, se...