Pular para o conteúdo principal

Entrevista dos seres

- Formiguinha, que te vale este mundo (de)vasto?
- De nada me soma; vivo, sobrevivo...  Existo apenas.
- Cigarrinha amiga, que te vale o teu cantar?
- Anima meus dias e noites de verão;  mas de nada me vale nos longos invernos (infernos)
- Castor, nobre ser, que te vale esta tua represa?
- Abrigo, proteção... Trabalho... Preguiça de o fazer.
- Abelha, minha rainha, que te vale teu nécta e teu pólen?
- O néctar me serve de alimento,  a mim e aos meus; o pólen, no entanto, ajuda no crescimento das minhas, nobres, amigas plantas.
- Rosa, roseira, que te vale tuas pétalas e perfume?
- Beleza... Elegância.
- Senhor Grilo, que te vale teu cricrilar?
- Cada qual possui seu modo de festejar; este é o meu, alegrar as madrugadas com o meu cantar.
- Perguntaste-nos que nos valia o mundo, o cantar... Perguntamos também nós a tu: que te vale a saudade, o tempo e a escrita? (Todos em uníssono)
- O tempo é um fétido, pestilento, insubordinado... Mísero ladrão. Furtou-me o que mais tinha de valioso, deixou apenas lembranças da minha preciosidade; as recordações resultaram em saudosidade. Quanto a escrita, de nada me vale sem meu pequeno diamante. (Respondi aturdido - surpreso)


.................................................................
Autoria: Alex da Silva Alves
.................................................................

Comentários

  1. Simplesmente incrível ! Sinto-me cada vez mais impressionada com sua magnífica arte de escrever! Meus parabéns .

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Ùltimo Pranto

Inda ontem recordei da tua outrora existência e... sinto muito. Fracassei! Cada novo dia é um tormento angustiante. Não sei o que aqui se passa. Me fazes muito falta. Eu sei: Já passara-se um longo período desde a tua partida, mas ainda me doí a alma. Falhei em outrora e agora falho novamente.  Pressinto que em breve nos encontraremos: Você está pronta? porque eu estou. Ninguém será avisado, não quero que interfiram. Eles não me entendem, não sabem a dor que me assola; era para ter sido a mim a quem o fim levaria e não a ti. Está sendo difícil suportar essa dor... Todos ao redor me dizem o óbvio: " Você tem que superar. " Falam como se fosse fácil. Se passassem pelo o que passo, não diriam uma estupidez tão grande!  Escrevo, mas sei que tu não lerás mais nada. Nenhum escrito provindo de um desgraçado, lhe trará algum proveito. Até mesmo a caneta me trai, falha tal como seu dono. Insiste em não gravar no papel palavras que ora escrevo. Compreendo-a muito bem. No...

Alma moribunda: parte I

Erguem-se dos leitos quatro moribundos; caminham ambos em direções opostas - onde vão? Não sei. As velhas alcoviteiras, residentes junto a antiga catedral, espantam-se; tamanho horror as consome: tentam correr na direção da igreja para rezarem pedindo pela remissão de todas as vezes nas quais falavam dos transeuntes nos arredores da cidade. Pobres anciãs... Não veem que já é tarde pra isso! Não, minto; sempre há tempo pra tal. Mas por que deixar somente pra quando algum ser ergue-se do seu esquife?! O primeiro pútrido ser - uma moça jovem, altiva; dum vigor que se faz notório mesmo após sua extinção - caminha rumo ao norte. Por que norte?! Ora! pois! porque é aí que reside seu noivo, digo, ex-noivo... "Ela fora noiva?!" dirás com espanto. Sim, fora. Mas essa foi sua desgraça (digo desgraça não pelo fato de casar-se) pois o moço, com o qual iria unir-se , abandonou-a ao pé do altar. "Mas que crápula!", dizes tu. Sim, foras deveras; a donzela não suportara taman...

Outonos

   Turva a mim a visão... Os sentido todos. O que vejo não vejo... É ilusão. Frutos podres que misturam-se aos bons. A macieira, de fronte a mim, prefere os bons frutos ao chão e aqueles, contrários a estes, junto a si. Eu sei que tu dirá: "Por que a faz?" Tal barbárie se dá porque o aroma das maçãs pútridas é muito mais intenso que o das sadias.    Houvera, outrora, quem a quisesse por terra. Preservei-a. A capacidade frutífera daquela macieira, que ora vemos, é tamanha que impressionaria a si própria. Eu a deposito minha confiança plena. Sim! minha confiança plena. "Por que? Não acabas por dizer que a predileção dela são os ventos maldosos?! Que te faz crer tanto nela?" tu dirás. Ela cativou-me. "Mas a ti todos cativam!" retrucará tu. O que transforma-nos em seres vivos pensantes é crer no melhor que há noutrem.    Soprou, outrora, por sobre ela intensa tempestade. Resistiu fortemente. Queres saber poque creio?! Veja-a com os olhos meus e entenderá....